Buscar
  • Carol – enfermeira neonatologista

Vida de Consultora de Amamentação


De verdade, eu nem sei quando resolvi trabalhar com amamentação.

Quando me formei enfermeira, há 10 anos, em São Paulo, fui contratada pra trabalhar em um grande hospital. O hospital me perguntou, na época, em qual área eu gostaria de trabalhar. E eu respondi (sei lá por que): na maternidade.

Começou ali o meu contato com o mundo materno-infantil – eu, que não tinha sobrinhos, primos ou bebês na família. Entrei em um universo de alegria dentro do hospital (o que não é muito normal), com bexigas e bem-nascidos pra todos os lados.

Na época, eu revezava meus plantões entre dias na UTI neonatal, com bebês micro de 500g, que eu não sabia se ia rever no próximo plantão. E também dias na maternidade, no que chamamos de berçário de baixo risco, cercada de gente falando alto nos corredores, comemorando meio aos enfeites de porta de maternidade e os bem-nascidos deliciosos.

Acompanhar amamentação não era nada fácil pra mim – uma menina de 20 anos, recém-formada e sem experiência. Vou confessar, eu fugia das mamadas difíceis. Aos poucos, comecei a pegar orientações com as enfermeiras que trabalhavam há mais tempo e, depois de 6 meses, pedi pra ficar “fixa” no berçário de baixo risco e parar de dar plantões na UTI. Eu sentia, lá no fundo, que naqueles quartos tinha muito mais que bexigas de gás hélio e lembrancinhas fofas.

Aos poucos fui percebendo que cada mãe era um desafio pra mim e vivia um desafio à parte. E, naquela época, ainda pensava muito na técnica, muito no peito-bebê, pouco no que tinha por trás daquela mama – uma mulher.

Certamente esse período no hospital me trouxe muita experiência e segurança pra ter certeza de que está tudo bem (ou não) com os bebês e também saber quando acionar ajuda – um bebê desidratado por baixa ingesta, por exemplo.

A vida segue e eu saí do hospital, minha carreira tomou outro rumo dentro da enfermagem. Um dia, meu marido e eu fomos visitar um casal de amigos cujo bebezinho tinha acabado de chegar. Em uma cidade pequena do interior de SP, sem assistência e pouca informação, entrei non quarto e vi aquele bebê magrinho, amarelo, com taaaaanta dificuldade pra mamar. Eu fui ali como visita – eu nem sabia que ainda sabia fazer aquilo. Mas fui e ajudei aquele bebê e aquela mãe. Ajudei ouvindo, entendendo o que estava acontecendo, observando os dois. Orientando o que poderia ajudar, o que poderia ser melhor.

Aquela foi a mamada que mudou a minha visão sobre amamentação. Mudou minha carreira. Mudou minha vida. Ali eu senti o que eu queria fazer pelo resto da vida. Pelo bebê, que saiu satisfeito do peito. Pela mãe, que não se cabia em tanta alegria em ver aquilo acontecendo. Pela avó, que esbanjava alívio em ver que tudo ficaria bem. Ali eu percebi que tudo aquilo era muito mais do que peito-bebê. Ali eu percebi como eu poderia fazer a diferença. Ali nasceu a nana neném. E renasceu uma enfermeira neonatal, apaixonada por amamentação, apaixonada pela assistência, que estava dormida aqui dentro.

Como em toda profissão, nem tudo são flores. Há aqueles dias que a gente chega em casa exausta e arrasada, porque nada do que tentamos deu certo. E, não sei se vocês sabem disso, mas além de lidar com a frustração e a dor da mãe, precisamos também aprender a lidar com a nossa frustração. A frustração de ter tentado de tudo e mesmo assim não ter dado certo. A frustração de ver que aquela amamentação tem tudo pra dar certo, mas a mãe não quer/não pode amamentar. A dor nas costas de ficar por uma hora encurvada auxiliando a amamentação. A dor nas mãos de ficar por longos minutos massageando e ordenhando uma mama “empedrada”.

Tudo isso dói.

Amamentar não é instintivo. É cultural – e nossa sociedade não está pronta pra isso ainda. Cabe a nós, consultoras de amamentação, continuar trabalhando duro e ajudando a criar oportunidades para os novos bebês e mães desse mundão.

Não trabalhamos com cálculos de engenharia de pontes ou prédios. Trabalhamos com seres humanos, há tantos fatores variáveis. E isso que torna o nosso trabalho tão mágico. É sair de casa e não saber o que vai acontecer. É voltar pra casa com a sensação de mais um dia de muita troca de experiência e aprendizado. É um trabalho que nos deixa cada vez mais fortes. Cada vez mais pessoas. Vendo a força de cada mulher.

Carol

Enfermeira neonatologista

COREN SP 205.257

www.facebook.com/consultorianananenem

Insta @consultorianananenem

www.youtube.com/nananenem

#amamentação #enfermeira #cuidadoscombebês #maternidade #maternidadereal

0 visualização
Siga a gente
  • Instagram - White Circle
  • Facebook - White Circle